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02/12/2009
Jayme Buarque de Hollanda,
do INEE: Apagão ou Piscão ?
O
artigo a seguir foi publicado no início de 2005 e permanece
bem verdadeiro na conjuntura atual, razão porque é
republicado. O Instituto Nacional de Eficiência Energética
vem, há muitos anos, preconizando o uso da geração
distribuída e cogeração como alternativa
viável à geração centralizada, tendo
inclusive sido um dos fundadores da WADE - World Alliance for
Distributed Energy e patrocinado a criação da COGEN
Rio, instituição formada por empresas do setor de
energia ligadas por um objetivo: o fomento da atividade de cogeração.
Palavras
mal usadas já foram a causa de guerras e muito sofrimento.
É um pouco o que está acontecendo agora com o setor
elétrico brasileiro, que vive um inferno astral em torno
da palavra "apagão" desde o início de
2005.
Tudo
começou com uma interrupção do suprimento,
no primeiro dia do ano, e que, por pouco mais de uma hora, manteve
os estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo sem energia
elétrica. Eleita pela imprensa para descrever o ocorrido,
a palavra "apagão" tem sido uma permanente fonte
de dor de cabeça para políticos e dirigentes do
setor elétrico que afirmaram que o episódio não
se repetiria.
Infelizmente
e, para o deleite de quem tem consciência de que uma declaração
dessa não se faz, acabaram sendo contraditados outras vezes
pelo mesmo tipo de acontecimento, que voltou a se manifestar logo
em seguida, várias vezes. Acredito que a raiz dos problemas
está na palavra "apagão". Até o
início deste século, a palavra era usada para designar
uma falha do sistema elétrico e que atingia uma área
extensa, como o que aconteceu no início do ano.
Quando,
em 2001, a crise de falta de energia foi anunciada, talvez por
falta de uma palavra que caracterizasse aquela situação
inusitada, a imprensa adotou o "apagão", embora
aquele período de exceção não tenha
sido caracterizado por interrupções importantes
de fornecimento.
Sentidos
múltiplos para uma mesma palavra existem, mas não
criam dificuldade, pois é possível perceber a diferença
no teor do discurso. Todos sabem diferenciar, por exemplo, a palavra
"manga" quando empregada como parte de uma roupa, peça
do lampião ou, ainda, como fruta. O problema com a palavra
"apagão", no entanto, é que os dois sentidos
se aplicam a assuntos do setor elétrico, um para designar
uma ocorrência com duração relativamente curta
e, outro, mais estrutural e problemático em longo prazo.
Como
o novo uso de "apagão" para descrever uma situação
de escassez já está consagrado, a solução
para evitar a confusão seria a criação de
uma nova palavra para caracterizar eventos como os que aconteceram
neste início de 2005. Eu proponho a criação
da palavra "piscão". Não é preciso
ser um grande cientista do setor elétrico para perceber
que os "piscões" acontecerão sempre por
fatores meteorológicos, defeitos nos equipamentos, falha
humana etc.
Assim,
ninguém precisa dar declaração quanto ao
final dos piscões. De qualquer forma, cabe perguntar se
é possível combater piscões ou, pelo menos,
reduzir seus efeitos na medida que falhas que tiram do ar alguns
quarteirões raramente chegam a ser notícia. Na visão
tradicional do setor elétrico, a saída passa por
construir mais linhas de transmissão, inclusive redundantes,
além de novos e mais sofisticados sistemas de controles.
O problema deste tipo de solução é que, além
de encarecer os custos de transmissão, que já tem
preços muito altos, aumenta a complexidade e "espraiamento"
da rede formada por longas linhas de transmissão.
Para
se ter uma idéia, o sistema de linhas de transmissão
no Brasil é tão longo que, se fosse transportado
para a Europa, iria de Lisboa a Moscou, cobrindo boa parte do
velho continente, mas atendendo apenas uma potência equivalente
à da Inglaterra. Com estas extensões, os riscos
de problemas no fornecimento aumentam e estão sujeitos
a se propagar afetando solidariamente muitas partes do sistema.
A
melhor solução, em minha opinião, é
seguir na direção oposta, aumentando a geração
junto às cargas, ou seja, recorrer à Geração
Distribuída (GD). A nova figura foi finalmente introduzida
no novo modelo do setor elétrico e se deveria prestar mais
atenção aos seus benefícios. Por serem inevitáveis,
os "piscões" vão sempre acontecer, só
que, com a introdução da GD haverá a redução
das áreas afetadas e a interrupção de fornecimento
poderá ser limitada a alguns quarteirões ou bairros.
Como
são localizados, os "piscões" poderão
ser mais facilmente resolvidos e raramente se transformarão
em notícia. Os dirigentes não acordaram ainda para
o fato de que tornar o sistema elétrico mais racional é
bom até para o marketing do governo.
O
artigo "A culpa do apagão", dos professores DAVID
ZYLBERSZTAJN, e AFONSO HENRIQUE SANTOS, publicado no Globo em
19 do mês passado, enfatiza esta solução
Fonte: http://www.inee.org.br |
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